No dia da apresentação, só sorrisos na última fila (Foto: Divulgação / Arquivo Pessoal)
Bastou um mês em Istambul para Raquel Peluci ver que tinha se metido em
uma roubada. Contratada pelo Sariyer Belediyesi, time recém-promovido à
primeira divisão turca, a medalhista olímpica em Sydney não recebeu
salários e colecionou histórias bizarras nas oito semanas em que esteve
no país, como o corte de luz e água no apartamento oferecido pela
equipe, além de uma avaliação errada sobre uma lesão em seus joelhos.
Com prejuízo, aborrecimentos e trauma pelo breve retorno ao vôlei de
quadra, a jogadora acionou a Justiça e decidiu retornar ao Brasil e às
areias, onde voltará a competir a partir de janeiro, em Fortaleza.
Raquel recebeu a proposta para jogar na Turquia já no segundo semestre
deste ano. Como não havia encontrado uma parceira experiente na praia
para disputar a temporada 2012/2013 do Circuito Brasileiro, decidiu
aceitar o desafio de voltar às quadras, onde conquistou o bronze
olímpico em 2000. A proposta financeira pelo contrato até abril era
tentadora e, sem perspectivas a curto prazo na praia, vinha bastante a
calhar.
O clube pagou as passagens de Raquel e sua tia e as instalou em um
apartamento grande e bem localizado. Mas a alegria da apresentação durou
apenas uma semana. No dia 30 setembro, o primeiro pagamento não caiu na
conta da atleta. A internet não foi instalada, e o transporte
obrigatório parou de servir a ela e à cubana Yaima Ortiz (bronze em
Atenas) no trajeto entre suas casas e o local de treinamentos.
- Depois de um mês eu vi que as coisas não iam mudar. Pensei “Que
roubada!.”. Achei que seria uma oportunidade de ganhar um bom dinheiro,
de fazer de novo o que eu fiz bem a vida inteira. Queria dar o meu
melhor porque tinham boas referencias minhas na quadra. Não queria pagar
mico, mas eles tiraram meu tesão. Se hoje perguntarem se eu jogaria
quadra de novo, ficaria com medo.
Laudo duvidoso, banho de baldinho e visto vencendo
Raquel teve dificuldades de readaptação ao piso duro. Sofreu com dores e
alega que não recebia qualquer apoio estrutural neste sentido. Segundo
ela, não havia massagistas ou fisioterapeuta à disposição após todos os
treinos, e as atividades na academia (normalmente diárias no Brasil)
eram limitadas a duas sessões por semana. Por vezes a brasileira
discutiu com a comissão técnica sobre a pesada carga de treinos e se
recusou a fazer séries de saltos inteiras. Ouviu que era um
comportamento típico de estrelismo e que não haveria uma qualquer
tratamento diferenciado, apesar de ter 34 anos, idade superior à maior
parte de suas companheiras.
LAudo médico apresentado à Federação turca pela
atleta contradiz laudo obtido pelo Sariyer
atleta contradiz laudo obtido pelo Sariyer
Quando o agente e o advogado de Raquel notificaram a Federação Turca
pedindo intervenção na cobrança de salários, o clube levou a atleta para
realizar exames. A ressonância magnética apontou condromalacia
(desgaste de cartılagem normal em atletas de alto rendımento) nos
joelhos. Mas, ao invés de oferecer tratamento, o Sariyer Belediyesi
tentou rescindir o contrato da brasileira oferecendo apenas um mês de
salários. A essa altura já deviam dois meses, além de outras despesas
com as quais a atleta arcou e cujas notas fiscais guardou. Entre os
gastos estavam o pagamento de contas de luz e água, que deveriam ter
sido quitadas pelo clube, conserto da máquina de lavar, que deu defeito e
alagou o apartamento, além de tratamento médico particular.
Para embasar sua argumentação, Raquel se consultou com um renomado
médico em Istambul e obteve laudo contraditório em relação ao
apresentado pelo clube. Sua lesão era comum entre jogadores e precisaria
apenas de um planejamento adequado para que a recuperação fosse plena e
pudesse exercer normalmente a profissão. Questionado pela Federação
Internacional de Vôlei (FIVB), o clube turco tentou novo acordo com a
brasileira. Mas já era tarde, e a jogadora já havia acionado a Justiça.
- Gastei todas as minhas economias para sobreviver lá. Se eu não
tivesse levado dinheiro, poderia ter ficado sem comida. Eles só me
pediam paciência e em momento nenhum demonstraram profissionalismo.
Fiquei num apartamento às escuras, tive que tomar banho de baldinho.
Minha tia tem 78 anos e passou mal quando nos deram 24 horas para deixar
o apartamento. Passei por mil situações desagradáveis e estou
traumatizada. Sendo que nem meu visto de trabalho foi regularizado. Ou
seja: se ficasse mais um mês lá, ainda ficaria como imigrante ilegal –
contou.
Toda a operação foi intermediada pelo agente Nejat Sancak, que havia
cuidado da transferência da atleta para o Zarechie Odintsovo, da Rússia,
em 2005. Segundo Raquel, Sancak também ficou sem receber. O SporTV.com
tentou contato por e-mail e telefone com o Sariyer Belediyesi, mas não
obteve sucesso.
Às escuras: Raquel usa luz do corredor para fotografar sua casa, que teve energia cortada (Arquivo Pessoal)
De volta à praia, Raquel jogará com Josi
Quando percebeu que o fim de sua passagem pela Turquia era questão de
tempo, Raquel passou a acompanhar mais de perto a movimentação do
mercado da praia. Soube que Josi estava disponível e ligou para a
catarinense. Acertaram a parceria e vão estrear juntas na etapa de
Fortaleza do Circuito Brasileiro 2012/13. Só ainda não sabem se no
Nacional, torneio classificatório, ou no Open, que reúne a elite do
vôlei de praia.
- Não vejo a hora de virar a página. Conversei com umas pessoas e me
disseram que a Josi jogou muito bem esta primeira parte da competição, e
espero que a gente dê certo juntas. Quero voltar logo para a praia,
onde as dores e os sacrifícios são menores do que na quadra. Quero
voltar a ter prazer em jogar.
fonte: spotv.com
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